segunda-feira, 4 de abril de 2022

Blog não retomado - provável fim

1- Introdução

Bom, minha ideia era retomar o blog, mas no fim das contas não tenho estabilidade suficiente pra fazer isso. É fraqueza mesmo. Fiz o post no facebook sobre "O Novo Imbecil Coletivo", ou, antes, o próximo que deve vir no futuro, e, novamente, gostaria de deixar registrado que não se trata de uma reclamação com a obra efetivamente feita por nenhum dos nomes citados - e não-citados para falta de exaustão -, mas apenas um pressentimento, pela minha observância nos ambientes, de algo que provavelmente vai acontecer a longo prazo. Isto é, a perda da habilidade de integração do saber, pelo seu esfarelamento sem uma reintegração nem pública [debates], nem pessoal [filosofia].
"Quem és tu para dizerdes isto?" 
- Absolutamente ninguém. Individualmente, socialmente, publicamente, mesmo nas rodas olavettes. E, como este é o meu último post, tenho a expectativa de permanecer cada vez mais como um ninguém. Desde o começo eu entrei nessa mais pela brincadeira [mas consciente de que o assunto era sério] do que propriamente por alguma outra razão, seja vocacional, seja religiosa ou o que for. Voltarei ao que eu queria: brincar. Tudo o mais me trouxe uma carga de estresse excruciante, e, como não sou ninguém, desnecessária.
Vamos ao tema principal.

2- O Novo Imbecil Coletivo - Amostragem

É por efeito de marketing que chamo assim. O título verdadeiro, acho eu, seria algo como "o espelho estilhaçado" ou "monólogos coletivos", porque não se tratam nem de longe de imbecis, muito pelo contrário, são pessoas que eu pessoalmente admiro, e não ousaria nem dizer que estou minimamente próximo do nível efetivo de nenhum. Digo isso porque quero que prestem atenção: o ponto não é o conteúdo desenvolvido, é simplesmente um contraste percebido entre o que cada um trabalha e a condição real e efetiva da cultura tal como eu a investigo. Posso estar errado? Com certeza. Aceito discussões? Adoraria. Mas tenham em mente também que este é meu post de despedida, então não garanto que darei plena atenção daqui em diante. Mas tentarei, ao menos no que já está publicado neste blog.

2.1-Do que eu estou reclamando quando reclamo?

2.1.1- Pessoas

2.1.1.1- Rafael Falcón
Rafael Falcón é um alunho brilhante? É um aluno brilhante. Mas há 2 pontos que ele ilustra que me incomodam.

a] Sua postura classicista exagerada, quase robótica, remove do horizonte de interesses dos seus alunos outros autores.
Assim, por exemplo, no esforço de manter o rigor da poesia clássica, ele perde de vista - ou talvez não ele, mas seus alunos com certeza - o valor para além desse rigor, que é, por exemplo: 

I] A transformação histórica nos usos da linguagem. Quem quiser compor com a língua do século XVI em pleno século XXI não percebe nem o quanto de imagens e legado foi adqurido nesse tempo, nem adquire um senso da coerência de forma e conteúdo. Menos ainda uma compreensão viva e prática da evolução da histórica refletida na língua, na literatura e nas imagens escolhidas. Compare-se o mundo imagético de um Baudelaire com o de um Bruno Tolentino, uma Cecília Meireles, um Manuel Bandeira etc., e assim se adquire uma grande variedade de formas poéticas e seus usos bem colocados num português gostoso, bem como estilos e indivíduos distintos.

II] A poesia não se restringe à mensagem de um poema em particular, mas da proposta poética, do conteúdo tomado em conjunto etc.. Tudo isso some de vista. Assim, por exemplo, Bandeira conta uma narrativa ao longo das suas obras da aceitação da morte, e do amor à linguagem. O ouvinte rigoroso do Falcón perde acesso a tudo isso na medida em que se foca só na linguagem com a medida clássica. Idem, Fernando Pessoa é quem melhor demonstrou, até onde vi, o que é um poeta, de onde nasce a poesia, e como ela transfigura até uma vida vazia em mistério. Em suma, o que é a "personalidade poética" [não lembro o nome preciso] da 9ª camada. É em Pessoa na poesia e nas lições poéticas de Stravinsky, o músico modernista, que melhor vemos essa descrição.

b] Idem, a mesma postura meio robótica, especializada, excessiamente rigorosa, talvez seja a razão dele não ter percebido ainda um "macete" no seu próprio trabalho.
Como seu estudo sobre os 4 graus de letramento nasce rigorosamente de uma inestigação histórica, Falcón não arriscou - ou ao menos ainda não demonstrou tê-lo feito - experimentar sua hipótese não como algo "da época do trivium, quando havia grandes dominadores da linguagem", mas como regra geral para o aprendizado de qualquer idioma. Quer dizer, a passagem do passivo bruto incompleto para o passivo culto não poderia ser justamente a régua de medida que distingue um "passivo bruto incompleto" e um "passivo culto" em filosofia? E por que não em programação Python? Ou em andar de bicicleta? Existe na própria absorção de uma habilidade qualquer estágios, que vão da repetição mecânica à percepção espontânea e integrada dos seus usos, e, me parece, foi isso o que no fim das contas o Falcón descobriu - e, uma vez colocado no seu devido lugar, ele passaria de um investigador histórico para um filósofo, porque daí dá para construir todo um sistema filosófico, uma porta de compreensão da filosofia. Ele não fez, nem, me parece, nada parecido, precisamente pelo seu rigor. Eu teria algumas reclamações menores, que dizem mais respeito a sua posição social do que ao conteúdo efetivo do seu trabalho, mas essas eu tiro dele  a responsabilidade e colocarei mais adiante.

Nota geral: O rigor do Falcón é consequência da sua ênfase na linguagem clássica. Até onde sei, ele começou como professor de latim - e apareceu até num jornal local -, e daí foi evoluindo a partir da perspectiva do desenvolvimento da linguagem. Ele quer ver o latim, os usos mais complexos, como forma de desenvolver a compreensão linguística. E vai até aos extremos da absorção gramatical excessiva - o que não é errado, mas Olavo não pediu isso - injeçando seus alunos tal como sua própria percepção, se vocês levarem em conta que meus pontos a e b são justos.

2.1.1.2- Paulo Cantarelli
Discípulo de Raimundo Carrero, portanto herdeiro da Geração de 65 [Ângelo Monteiro, Alberto de Cunha Melo em menor grau] e igualmente do movimento armorial do Ariano Suassuna, o Paulo, até onde vi, tem uma ênfase numa estética que tenha ordem interna e coerência, simplicidade e comunicabilidade. Assim, seu estilo é uma mescla do cordel ibérico [a bela infanta] e o "esteticismo europeu" [Flaubert]. Não interessa o conteúdo da obra, nem seu efeito cultural, mas sim a obediência à estética, de modo que um conto bem feito vale mais do que páginas de Dostoiévski. Assim, seus discípulos acabam perdendo acesso a essas obras, como no caso do Falcón, na proporção de obediência, por enfocarem excessivamente na estética e de pouco a nada no conteúdo a ser comunicado.
Mesmo autores de "má estética" possuem uma ordem interna, e esse tipo de habilidade não será herdado do seu trabalho. Bernanos tem um estilo de descrição sentimental de causa-efeito dos personagens, como Doistoiévski do psicológico, que são em si mesmas técnicas maravilhosas, que um escritor melhor poderia tentar adaptar a uma estética própria. Esquecem-se, sobretudo os discípulos, que foi a estética discociada da intenção cultural que gerou o caos da arte moderna, com as propostas fechadas de estética, perfeitamente justificáveis do ponto de vista da arte, mas totalmente distantes do público, fechando acesso inclusive ao desenvolvimento da capacidade estética sem antes fazer um curso inteiro para compreender o básico. Assim, por exemplo, a proposta de Schoenberg na música, ou o velho caso das escolas de artes plásticas, do cubismo, futurismo, etc.. Stravinsky, Villa-Lobos entram aí como um meio-termo entre o caos ordenado de uma arte fechada em seus muros e um esforço por comunicabilidade, seja nas formas clássicas como na matéria tratada. A cegueira dos novos jovens desejosos de um lugar ao sol na escrita faz-lhes perder o interesse por aquilo que os abriria para um universo espiritual muito mais profundo, que se refletiria em suas obras. Como especialistas que veem apenas a sua especialidade, acabam perdendo tudo o mais que lhes escapar. Como o antropólogo que não decifra religião nenhuma por querer ser imparcial e seguir as regras a risca.

Polêmica: 
Sendo Falcón alguém que defende ardorosamente Camões, e Cantarelli alguém que despreza Camões, pelo mesmo motivo - a gramática usada em excesso -, e troca Camões por Cervantes, eu imagino aqui e ali como seria uma discussão de ambos, e o quanto o público de cada um dos lados perde por não saber o lado do outro - novamente, sobretudo os que mais se prenderem no unierso de cada um desses, conforme o grau de admiração.

2.1.1.3 - Eu falaria também do Francisco Escorsim, em conjunção com os três, mas conheço menos o seu trabalho. Ao invés disso, vou passar pra temas polêmicos pra demonstrar a treta na prática.

2.1.2 - Tópicos de Amostragem

2.1.2.1- Latim
A morte do Olavo gerou à dissolução do seminário de filosofia em um centro cultural. Isso não é problema nenhum: era centrado em uma pessoa, agora serão várias, mas tentando retomar as linhas da pessoa originária. Ok. Mas me irritou ver rios e rios de palaras gastas para falar, quando o administrador do projeto tentava propor aulas de latim, sobre técnicas de aprendizado, e brigas, e "mas o Grande Falcón diz A", "mas a Schola Latina diz B", e farpas pra lá e pra cá, como baratas tontas. Isso me irrita porque representa uma queda de nível. Não se pergunta o mais básico: a] Para que estudar latim? b] Para que Olavo propôs o latim? Do geral ao específico. Vou tentar fazer uma descrição geral, para demonstrar como ao menos se expõe a confusão. Então temos aprender latim para:

I] Dominar uma língua estrangeira

II] Conhecer os clássicos em língua latina

III] Complementar o estudo da língua portuguesa

IV] Dominar as relações gramaticais de uma língua

Vou tentar ser breve na descrição desses 4 motivos [pode haver outros, mas só consigo pensar nesses como principais].

Em I e II cabe a Schola Classica, ou seja, o latim pelo método natural. No caso de II, dá para complementar com manuais dos mais diversos tipos, desde Familia Romana, do Instituto Vivarium Novum, até aulas à parte, imersivas. É óbvio que aqui haverá menor enfoque gramatical, no sentido de tomado conscientemente: o método natural enfoca maior rapidez na absorção da língua, mas menor consciência linguística. É bom para aprender qualquer idioma, mas não, por exemplo, para aprender a ler poesia ou usos complexos desse idioma.

III] Com o latim estudado assim, o foco é menos no aprendizado linguístico e mesmo gramatical e mais, por exemplo, nas heranças na nossa língua. Assim, estudar etimologias [eu adoro o site "Origem da Palavra", apesar de estar descontinuado], para saber, por exemplo, a conotação de pueril, que não é de poeira [algo insignificante], mas de puer, criança [algo no início do desenvolvimento], e que dizimar vem de dez, como em dízimo, implicando deixar uma décima parte. Dizimar não é aniquilar [que vem de nihil, nada], então as pessoas usam O TEMPO INTEIRO dizimar como se fosse aniquilar, e não percebem a bosta que ficará seu texto quando for lido depois, até por eles mesmos. Percebam que nada disso é propriamente latim, mas adquirir conhecimentos de latim acelerará muito o processo, além de abrir a curiosidade. Qualquer material serve aqui, mas o essencial é ser complementado por essa atenção à semântica das palaras. É perceber a presença de prefixos e sufixos latinos [emascular, concordar] ou gregos [epiderme, hipoderme], da aglutinação de radicais gregos [esquizofrenia], distinguir palaras vindas do grego [blasfemia], das latinas [coração], das árabes [algodão], indígenas [tapioca], e de demais locais. Em textos sérios, isso sempre é levado em conta: mesmo expressões tomadas como óbvias, às vezes são de origem estrangeira [last not least, 'por último, mas não menos importante', all's well that ends well, 'tudo termina bem quando acaba bem'], a distinção entre música popular e "pop music" etc., tudo isso entra dentro dessa abordagem do latim. Vai muito além da língua latina, obviamente, ela se torna um recurso a partir do qual abranger essa atenção da conotação das palavras, que é algo monstruosamente importante não só para escritores, como para qualquer um que queira sair da "língua da mídia", a prisão "cronocêntrica" imposta pela língua do dia.
Assim, por exemplo, II e III são complementares no sentido de abrirem ao sujeito a visão de uma língua mais profunda e de uma outra cultura. Mas podem ser feitos separadamente.

IV] Em grau menor, é a intenção do Olavo. E, para isso, ele recomenda o gramática latina do Napoleão Mendes de Almeida. No todo, a intenção do Olao passeia entre II, III e IV, mas sobretudo III e IV. Falcón eleva esse lado ao ápice quando enfoca no domínio das relações gramaticais "em geral", e das relações de figuras de linguagem, para ter uma plena preparação na leitura. É como estudar um idioma estrangeiro pela sua gramática, memorizando-a. É, diga-se de passagem, diametralmente oposto ao ponto I, é complementar ao ponto II [como o método do Falcón demonstra], e para o III é como usar uma bazuca par matar uma mosca. Exise uma importância efetiva no domínio gramatical pleno, mas pelos alunos que vi do Falcón, acho III mais importante que IV tomado de forma plena, e não como a sugestão do Olavo.

Acho que por aqui já é suficiente, então, para resumir, temos: I] método natural [Schola Classica, Familia Romana etc.], II] gramática+dicionário+os livros [potencialmente pode servir o Napoleão, e mesmo as sugestões de I], III] Pegar um material com vocabulário, como Napoleão ou o do Paulo Rónai, aprender os rudimentos do Latim e enfocar na língua portuguesa [leitura dos clássicos e bons usuários da língua, como o próprio Olavo], IV] A gramática latina do Napoleão, o método do Falcón ou, afinal, largue o latim e foque em pegar uma gramática portuguesa qualquer [como a do Celso Cunha] e tentar entender as relações lógicas das partes da oração em português mesmo.

++
A intenção do ensino, na minha opinião, vale mais do que o ensino propriamente dito. Você pode gastar horas de ensino para algo sem sentido. Se não há um rumo desde o começo bem ordenado, a coisa acaba em nada. Ao contrário, se há um rumo, mesmo que fique meio caótico - como as aulas do COF - o efeito vai acontecer, vai estar presente.

2.1.2.2 - Formação do Imaginário
Puta que pariu, quanta abobrinha escabrosa eu escuto aqui"" [estou sem ponto de exclamação, "" = exclamação] Cada um cria seus fantasmas sobre o que diabos é imaginário [""], encaixa no seu projeto pessoal [""] e cria monstros que para o público aparece como um rio mais podre do que o Gangis. Só sobrevive a ele quem é nativo dali, porque, pelas caridade, o resto não desenvolveu anti-corpos suficientes""
Então, o que diacho é o imaginário? A palavra é óbvia, é o conjunto da capacidade imaginativa do sujeito. Mas o termo específico, da roda olavette, dá pra colocá-lo em 2 aspectos principais:

a] "Coleção de figurinhas"
Sabem por que asiáticos para nós parecem todos iguais? E por que os desenhos, para os mais velhos, são "tudo pikachu"? E por que um asiático ao ver brasileiros dirá, com razão, que acha os brasileiros todos iguais? É porque nossa capacidade distintiva não se baseia nos dados sensíveis. É óbvio que ao ver dois japoneses lado a lado e dois brasileiros, um Neymar e um Ronaldinho Fenômeno, será possível distinguir os 4, e seja um asiático ou um brasileiro poderá reconhecer que há mais traços de similaridade entre os dois asiáticos [sei lá, Shikura Chiyomaru e Miyano Mamoru] do que entre os dois brasileiros. Mas na hora em que sumirem de vista, ou, pior, diante da multidão, não será mais possível fazer essa distinção.
O que acontece aqui é o fenômeno das figurinhas. O otaku que assiste animes saberá distinguir de imediato os traços de animes, e que no mínimo pertencem a obras distintas, mesmo sem conhecê-las, mesmo que o traço do desenho japonês seja muito mias rigoroso e metrificado do que o americano [compare-se Johnny Test, Phineas e Pherb, Padrinhos Mágicos e A Vaca e o Frango com, sei lá, One Piece, Kimi Ni Todoke, Steins;Gate, Death Note]. A diferença entre o otaku e seus pais não-otakus é a quantidade de figurinhas acumuladas na memória. Idem, duas pessoas, uma que saiba várias espécies de árvores e outra que não, ao descreverem um passeio no bosque. Ou um que goste de carros e outro que não ao descreverem a mesma andada na rua. Aquilo que está na sua memória, aquilo que foi fruto da sua atenção no passado, atrai a percepção para novos elementos no presente: e nosso cérebro compara esses dados e distingue os detalhes. Quem não conhece árvores, a não ser que tenha a atenção despertada por algum motivo [alguém pediu anteriormente ao passeio, por exemplo] para lembrar-se, cairá na ideia genérica: "lá havia árvores, mas não sei bem quais". Talvez a memória tenha notado algo de específico, de chamativo, como uma árvore grandona, ou uma bonita etc., mas isto é tudo. O mesmo vale para carros, para asiáticos na visão de brasileiros, para brasileiros na visão de asiáticos, para ouvintes de música com o ouvido treinado vs sem, para quem consuma literatura como Paulo Cantarelli etc..  Vale, sobretudo, no nosso caso, para dois elementos extras: a atenção à linguagem e a atenção à situações humanas.
Quando se fala "formação do imaginário", as duas primeiras intenções que, creio eu, estavam na mente do Olavo era a atenção ao sofrimento humano e a atenção à linguagem.

I] Sofrimento humano.
Assim como pessoas, carros, árvores, também "situações humanas" ou "sentimentos humanos" são objetos que passam pela nossa memória e são facilmente esquecíveis, na proporção inversa ao total de casos guardados na memória. Assim, quem ouviu muita fofoca mesquinha sabe lembrar facilmente e prestar atenção à mesquinharia, quem ouviu muita tristeza dos outros se torna uma espécie de psicólogo para os amigos, porque sabe reconhecer e lidar melhor com a situação, enquanto outros simplesmente ignorariam ou cortariam o assunto. Aquilo a que você dá atenção se torna você. É por essa razão, dentre outras, que Olavo sugere o desenvolvimento do imaginário como condição fundamental para o amor ao próximo: é a absorção de casos de dramas humanos que amplia o seu repertório na hora de ouvir e medir o drama do outro. Não é essencialmente necessário literatura: o "psicólogo dos amigos" de certo modo já faz isso, só que como sua imaginação só contém os casos banais do seu meio, ele perde um pouco em profundidade. Ainda assim, já cumpre o dever de atenção ao outro, que os demais não fazem, tal como não fazem ao tentar distinguir japoneses: simplesmente porque não tem base na memória para isso, e começar do zero, ainda mais sem saber que precisará da memória no começo, os faz simplesmente perder o interesse.
Do mesmo modo a poesia enquanto relatos de sentimentos humanos e experiências humanas específicas. Os relatos da poesia do Bandeira, o livro Tarde do Olavo Bilac afinaram minha percepção dos sentimentos de um jeito que um tratado não o faria, porque ali eu estou vendo a coisa de modo concreto, e medindo com meus próprios sentimentos e situações que conheço. Aliás, esse é o modo certo de ler poesia: como numa conversa de bar, quando Bilac chega e fala "tu já sentiu que tem um abismo de vozes no seu peito pedindo ajuda?" e você fala "poxa, eu até nem vi, mas um amigo meu vive ajudando os outros, e sente que eles pedem ajuda o tempo todo. É assim que você se sente?"

b] "Desaculturação"
No artigo anterior eu falei mais sobre isso, e sugeri uns artigos do Olavo a respeito. Aqui serei mais breve. Em resumo, como no caso do estudo do latim para a língua portuguesa, nós tendemos a entender tudo com base nas imagens que absorvemos. Essas imagens serão, via de regra, da mídia [regulada por um padrão de expectativa do público e das leis], da escola [regulada pela BNCC e PCNs], do ambiente em torno [caótico, mas mais ou menos fácil de prever, pelo efeito dos dois primeiros]. Em suma, criamos uma expectativa de como deve ser a vida, de como reagem as pessoas e como nós devemos reagir, de como funciona o mundo e o que devemos buscar etc.. Tudo, absolutamente tudo nos é dado pelas imagens/linguagem que absorvemos do meio. Se você tivesse nascido no Japão, em primeiro lugar pensaria integralmente em japonês, e, a rigor, seria budista/xintoísta, não cristão ou ateu ou o que for que esteja em moda por aqui. E assim toda sua visão de mundo seria diferente. "Ah mas eu podia ser japonês e cristão", claro, se absorvesse seus próprios modelos, além dos comuns do meio [ou por busca própria ou por fortuitamente nascer em um lugar de cultura minoritária]. Entendem? É inevitável. Mesmo com a internet, nós vivemos numa expectativa de recepção cultural em primeiro lugar dado pela nossa língua [quem aqui vai ler os 300 poemas da dinastia Tang, ensinados às crianças chinesas, sem saber a língua chinesa? Da onda a pessoa vai sequer ouvir falar e ter interesse, mesmo que recentemente, pelo interesse crescente na China, tenha ganhado uma tradução br?]
Assim, por mais que você não acredite, que não queira, que jure de pés juntos que não, você verá as culturas estrangeiras como "pikachus" assim como seus pais veem os desenhos, porque falta a você figurinhas. E, se falta figurinhas, também a sua compreensão da sua própria cultura será presa às expectativas do meio. Só dá pra ter uma visão mais abrangente, perceber, em suma, as minúcias, e tomar opções diferentes, na medida em que você mesmo agregue suas opções: que aprenda a pensar aproximadamente como um chinês, como um romano, como um francês, como um português, como um brasileiro do século XVI, e, assim, essas figurinhas abram a sua percepção dos detalhes da sua própria cultura. Isso, em suma, é desaculturação, e é a única liberdade que podemos realmente adquirir. Tudo o mais é apenas perambular pelas possibilidades já inerentes à cultura disponível a qualquer um e, portanto, suas ideias, mesmo que pareçam novas e originais, provavelmente são as de milhares de outros. Fora da absorção ativa de figurinhas, de dentro ou de fora da cultura de origem, nós também viramos um na multidão, e culturalmente nos tornamos indistinguíveis uns dos outos, mesmo que pensemos ser diferentes, por ignorância.

2.1.2.2.1 - A quem ensinar a formação do imaginário?
Não sabendo distinguir nem mesmo esses dois pontos"", surgem declarações monstruosas, como "ah o cara vai ler Dostoiévski e ficar doido", "ah isso é só pra intelectual erudito", "ah a sociedade vai ser destruída se fizermos isso", "ah não importa imaginário", "ah o imaginário deforma a imaginação ["" "" ""]" etc. etc. É óbvio que são misturebas das mais grotescas.

Em primeiro lugar, é claro que consumir muita pornografia fará o sujeito ter expectativa por pornografia. Consumir muita historinha melosa, seja dos dramas coreanos, das novelas da globo, do que for, criará a expectatia por essas paixões. Mas algo sempre será consumido: as pessoas não vão parar de ver e ouvir coisas, nem de buscar entretenimento. Só que elas estão buscando onde? Óbvio também que apenas consumir obras clássicas não fará tanta diferença se não houve nenhuma orientação. E, com esse monte de merdas sendo faladas, é porque o que está havendo é uma puta desorientação"" "" Eu fico ruído de raiva quando vejo essas coisas, porque ainda que vá haver uma distinção entre o que as pessoas consumirão, na prática, nós não devemos lhes fechar as portas, como Olavo jamais permitiria, mas, ao contrário, mostrar as possibilidades, mostrar o bom uso, e deixar que cada um escolha o que fazer com a sua porca vida. 
O aspecto da desaculturação pode não ser necessário em larga escala: a pessoa pode não precisar ler culturas estrangeiras. Mas quem disse que ela não sariia lucrando se consumisse as outras culturas do seu próprio país? E como diabos querem manter um movimento nacionalista de pessoas que nunca consumiram nada do sentimento nacional profundo? [Villa-Lobos, Lima Barreto, Machado de Assis, o próprio Olavo, etc.]. A pessoa conhece Programa do Ratinho, uma coleção de animes de temporada, the walking dead e super-heróis americanos, e quer ter raízes brasileiras. Ô meu saco"" E quando começa a buscar a cultura brasileira, surgem as várias senhoras muralhas para terminar de barrar o acesso do cara ao que poderia conhecer de algo fora do presente. Então ele volta a ser arrastado pelo presente, e, com raízes curtas, daqui a pouco muda de assunto. E assim é a direita no nosso país. A esquerda tem suas raízes, e todo mundo adentra ao menos no nível popular na cultura histórica. Mas quem se importa com a vida real? E que tal irmos a ela?


2.1.2.3 - Cultura no Brasil
Tem muito mais pontos que eu poderia abordar, mas preferi os que me parecem mais urgentes, e que para mim são mais fáceis de serem abordados, por serem também parte do que investigo. Assim, darei também aqui esse enfoque para mostrar a parte que mais me irrita, e mais me entristece nisso tudo.
Em primeiro lugar, é preciso separar o joio do trigo: existe uma coisa chamada "cultura", que é um aglomerado mais ou menos caótico mais ou menos controlável de dados, provenientes de "subculturas", e o olavismo, isto é, o trabalho aberto pelo Olavo em sentido mais amplo possível, é uma subcultura. Dentro dessa subcultura há uma grande ênfase em formação de novos leitores, nos estudiosos etc.: são os cursos do Instituto Borborema, do Falcón etc.. Então está todo mundo, os de grande nível como os de menor nível, enfocados em ensinar tudo o que você precisa saber para não ser um idiota, preparando pessoas para... ensinarem mais pessoas tudo o que elas precisam saber para não serem idiotas. Raríssimos os casos em que existe um tema efetivo da cultura real. A subcultura olavete se alimenta de si mesma e ensina a si mesma a ser si mesma. No melhor dos casos, ela assume os ares da "revolução brasileira" e luta contra o "perigo nacional". Nunca perigos específicos nem locais, porque não têm nunca audiência. Não obstante, Olavo mandava ocupar espaços locais e específicos, remover os comunistas do poder, que é estar numa cultura e ter cargos para exercê-la. Os olavettes, fechados em si mesmo, nem ganham espaço, por focarem apenas nos mesmos temas, nem conseguem deter o avanço do comunismo enquanto cultura. Já sabemos que não se vence a nível nacional, menos ainda pela política. Vou mostrar exemplos.

I] Quem se preocupou em, ao invés de reclamar das leis de incentivo à cultura, tomar espaço nessas mesmas leis para espalhar conteúdo que te interessa?[espero que de boa qualidade, claro]

II] Quem se preocupou em descrever como o comunismo influencia a sua cultura local?
Dou o exemplo da minha cidade, capital do estado. Existe aqui um órgão, DHNET, que tem toda a rede de comunistas, e serve para espalhar as informações, produzir livros etc.. Está associada ao centro histórico da cidade, e às bibliotecas de cunho regionalista. Nessa instituição estão associados arcebispos, padres, bispos, obviamente todos da Teologia da Libertação, e a história local é definida por esses grupos. É nessas livrarias que se reúnem e se conhecem os agentes da cultura e da política, e eles trocam figurinhas entre si, livros, sugestões etc.. A cultura local, pelo formato da escola brasleira, não têm influência em si, sobretudo porque o que é produzido de fato é fraco, mas aí entra o ponto III.

III] Nada do que é produzido nem localmente nem nacionalmente é criticado. Não fizemos uma crítica efetiva nacional. Existe o Rodrigo Gurgel, mas, até onde sei, seu trabalho é mais geral, mais histórico. Não é um Wilson Martins, nem um crítico de cultura como Olavo.

IV] Existe um sem-número de questões locais que espelham as nacionais e que, resolvidas aqui, resolvem as nacionais. Por exemplo: a minha região é influenciada pela ideia da desconstrução cultural por meio de autores como Durval Muniz, na Invenção do Nordeste. Ele é o "Foucault nordestino". Nunca refutado, nunca deasfiado, nem o doidão do Sidarta Ribeiro, talvez inteligentíssimo em neurobiologia, mas que por seus preconceitos pessoais iguala santidade à um drogado LSD ao uso de chás alucinógenas em religiões tribais, à simples loucura. Obviamente a mesma coisa"" Não existe crítica, não existe absolutamente nada. Nem um pio.

"Centros culturais" inteiros que não dão um pio sobre a cultura real em que estão imersas. Servem apenas para despejar mais pessoas com o "diploma virtual de leitor", "diploma virtual de latinista", "diploma virtual de cofista", mas com zero interesse até no que ocorre ao seu redor. Todos querem salvar "A Igreja", mas não perceber como está ocorrendo a formação do seminário da sua cidade, se é na universidade, se é enclausurado, como ocorre, que tipo de professores têm, o que se pode fazer a respeito. Nada, nem um pio.
Mas todos sabem que a esquerda é absurdamente ativa, e também uma avaliação rápida dos eventos locais, dos poetas locais, dos cursos técnicos ligados a "produção cultural" sera suficiente para revelar os erros e mostrar um mapa das referências de plano amplo. Refutando o local, refuta-se o universal. O oposto pode acontecer, mas quem vai refutar um universal que nem conhece como atua realmente, só por vagas notícias?

Ora, porra, puta que pariu""

Mas quem precisa, afinal, brigar com a realidade quando basta umas palavras no Facebook, twitter, Instagram, mais um curso de formação para doar novos formadores ad nauseam? Afinal isso dá mais dinheiro, prestígio, e estamos todos rezando porque Deus providenciará um futuro glorioso para nós que não fizemos nada para merecê-lo.



"Ah mas você está falando e não está fazendo nada, só criando discórdia"" "
E quem disse que não estou tentando? Mas, como esperado, dá trabalho. Não é da noite pro dia, e é exatamente por isso que eu fico irritado. Eu sei o tanto de trabalho e sacrifício eu fiz pra ter esse mínimo de informação que estou passando para vocês. Se falo isso, é porque tenho uma base organizada de informações. E é exatamente por isso que eu não vejo isso nos olavettes. Eu sei o quanto gasta, eu sei o tempo que leva, eu sei quantos dados são, e suponho como fica o discurso do sujeito que os tem, e não vejo quem os tenha. Não há menções, não há nenhum indício: todo mundo quer primeiro ficar totalmente inteligente para depois começar a conhecer os problemas que existe. Se é assim, é porque nenhum problema te afetou em nenhum momento, então, afinal, você não tem problemas para resolver, além dos seus próprios. Não digo que se deva colocar a carroça na frente dos bois e focar nos problemas antes de ter a formação, mas não ter nem mesmo feito um esboço da sua cultura, um mapa da ignorância de questões, possibilidades, de entender como é sua cultura, seu meio, a universidade ou faculdades, os centros de cultura etc., é porque, na prática, não estamos preocupados genuinamente com a cultura no Brasil, mas apenas em dispor do nosso espaço. Olavo trata de temas que ele viu, que ele sofreu junto, e que ele tentou resolver. Mas são os dele, não os nossos. Quais são os seus? O que te incomoda verdadeiramente? O que você viu, onde você está? Quer combater o comunismo? Como é o comunismo na sua cidade? Ou será que não existe? E se for tudo fantasia? Ou coisa de alguns locais específicos? Como saber se "Olavo tem razão"?

Ai ai ai.

+++
É isso, eu gastei tempo pra cacete neste texto, mas ele é meu último. Eu realmente estou cansado, e não é do olavismo em si, é só cansaço em geral. Eu vi mais do que queria, vivi mais do que queria, e tudo isso gerou um peso na memória e na consciência, que é, por assim dizer, uma histeria. Ao longo da minha trajetória desde que comecei a investigar Olavo, não como alguém a favor exatamente, em 2015, pedi apoio a gente de esquerda e de direita, vi bastante coisa, vi nexos causais entre movimentos que parecem dissociados, vi nomes que parecem grandes mas são na verdade frágeis, mantidos por mentiras, vi mentiras sem fim e covardias sem limite. Sei que esse final está muito inflado, e me lembro agora do Thiago Capanema quando desistiu das coisas kkk eu não desisti, ao contrário: como falei, vou voltar à minha raiz, que é fazer por ser divertido. E, no mais, focar na minha vida, que em tudo isso, em todas as sucessivas decepções de todos os lados os níveis, ficou em frangalhos. Não confundam: não falo no tom de quem acha que o mundo lhe deve algo. Longe disso: o que me incomoda é saber que o mundo está e permanecerá nas mãos de pessoas que não necessariamente se importam a mais mínima grama com o efeito do que fazem - nem mesmo [olha a bosta""] em se preocupar se o rumo que seguem não os levará a gastar a vida numa obra inútil, como é o caso, por definição, de boa parte dos autores locais, que são menores em relação aos nacionais e universais. Festival de bosta. Do começo até o fim, o único que vi que me estendeu uma mão foi Olavo: foi lendo seu livro o Jardim das Aflições que eu vi, talvez pela primeira e última vez, alguém vivo que estava genuinamente preocupado com aquilo que estava fazendo. Não era por pose, não era por "amor à terrinha", que é uma forma de amor a si, era simplesmente porque pessoas sofriam e precisavam de ajuda. E eu era uma delas. E acabou-se.

Todos os olavettes em geral são jovens. Há um futuro inteiro pela frente, tudo pode mudar ainda, e mudar até para melhor. Eu me recolho e esperarei esse dia. De minha parte, mesmo que eu termine algum projeto, eu não sou ninguém, de verdade, então se eu pudesse ao menos evitar que algumas pessoas gastassem a vida com uma obra inútil, isso para mim seria mais do que eu mereço.

O blog permanecerá aberto.

Até talvez uma próxima, pessoal.




sexta-feira, 4 de março de 2022

Coragem - Post 02 (de 10)

Pois bem. Esta série de post está tentando decifrar um conjunto de habilidades que o Olavo pretende ensinar e que constituem a base da inteligência humana. A primeira delas é coragem.

 

Eu nunca tinha reparado que o Olavo, além da gozação do texto, faz uma careta na foto, provavelmente imitando o formato da boca do Dugin. (Ver foto ampla aqui)

Citações úteis:

1) Tudo em volta induz à loucura, ao infantilismo, à exasperação imaginativa. Contra isso o estudo não basta. Tomem consciência da infecção moral e lutem, lutem, lutem pelo seu equilíbrio, pela sua maturidade, pela sua lucidez. Tenham a normalidade, a sanidade, a centralidade da psique como um ideal. Prometam a vocês mesmos ser personalidades fortes, bem estruturadas, serenas no meio da tempestade, prontas a vencer todos os obstáculos com a ajuda de Deus e de mais ninguém. Prometam SER e não apenas pedir, obter, sentir, desfrutar.

2) "O homem deve ter a coragem de ser bom quando tudo em volta o convida a ser mau." (Lipot Szondi)

3) A paciência é o começo da coragem. E é mesmo. Se você não consegue sofrer calado, sem choramingar nem amaldiçoar o destino, muito menos vai conseguir agir certo quando surgir a oportunidade.

4) A verdadeira coragem é sempre moral. Coragem é não fugir da morte, da derrota, da humilhação.

5) A coragem nasce do amor ao próximo, é só isso. Então, não se preocupe em ser corajoso, pois a coragem é um resultado, não uma causa. A causa é o amor ao próximo ou falta dele.

6) Toda covardia é um egoísmo e uma falta de amor ao próximo. Se o sujeito é covarde, é porque ele está querendo se preservar em primeiríssimo lugar, ou seja: aconteça o que acontecer — pode cair o mundo —, ele tem de sair inteiro. A pergunta é: por que você e não o seu vizinho? Lembrando a frase de Eric Voegelin: “Toda vida humana está integrada em uma hierarquia de bens”. Isto é básico. Hierarquia de bens: este bem que eu desejo não é tão valioso quanto aquele outro. Por exemplo, a vida moral começa no instante em que o bebê tem de escolher entre a posse de um objeto desejado e a amizade com o irmãozinho, não dá para ter as duas coisas ao mesmo tempo. Sempre se tem de fazer uma escolha, e nessa escolha entra uma hierarquia de bens. Nós estamos fazendo essas escolhas o tempo todo e quando fazemos a escolha errada, em geral, é porque não nos lembramos que existe uma hierarquia, que existe o mais importante e o menos importante; [que existe] a perspectiva da vida eterna ou a limitação da vida a este espaço terrestre. 

7) No último livro do célebre exorcista Pe. Gabrielle Amorth, Judas Iscariotes, falando diretamente do inferno e forçado por Nossa Senhora a dizer somente a verdade ainda que a contragosto, explica uma das razões do sucesso do diabo no mundo contemporâneo:

-- Nunca as pessoas obedeceram tanto quanto hoje. A obediência está na moda.

Pensem nisso, por favor, vinte e quatro horas por dia.

 8) Vivemos numa época moldada pela pergunta de Groucho Marx: "Afinal, você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?"


Para que coragem?

a1) Para confrontar sua própria história sem medo das suas vergonhas e pecados
a2) Para confrontar as desgraças que lhe ocorram com aceitação
a3) Para confrontar seus próprios pré-conceitos/ideias favoritas etc.
b1) Para confrontar a cultura presente, desde que com o intuito de romper com ela em busca de uma cultura superior ao que é dado no seu meio.
b2) Isso implica, com cada vez mais peso, a coragem de enfrentar o meio alienante, as amizades, a família, o emprego, desde que se saiba, idem, com cada vez mais peso, a razão pela qual se luta
c) Aceitar o caos ilimitado do conhecimento
d) Aceitar até mesmo perder a vida no processo se for preciso
e) Suportar a tristeza do "saber o que os outros não sabem" sem se revoltar contra os outros ou contra si mesmo
f) Suportar a visão da "ausência do Bem"

O que significa isso?

1- Nos tópicos (a) (a1, a2 e a3), a parte fundamental é a meditação. Olavo faz sucessivas reflexões a respeito, desde a aula 1 do COF, colocando como exemplo Confissões de Santo Agostinho. Essa postura, que pode ser estudada, por exemplo, no livro A Consciência da Imortalidade, implica numa confiança de que, por trás de todo o conjunto aparentemente caótico de fatos que acontecem a você, alguma ordem existe. Essa ordem se sugere no momento em que você tenta narrar esses fatos, mas, sobretudo, no momento em que você próprio tenta atribuir a partir do seu próprio desejo e inclinação aquilo que você quer ver como uma ordem na sua vida, a partir da qual os fatos caóticos se tornam um apoio. É isso o que significa yo soy yo y mi circunstancia. Existe um fator inventivo na busca do sentido, mas essa invenção é ao mesmo tempo uma descoberta, na medida em que quanto mais você narra sua própria história pra si mesmo, sem medo, mais ela abre seus sentimentos e lhe sugere formas que são uma aproximação dessa forma última e fixa que é o que podemos chamar de sentido da vida.

2- Um recurso útil, sobretudo em a1, é a confrontação do fato isolado com a confiança numa ordem que encaixa esse fato em algo com sentido; isto é, "o mundo foi criado por Deus, que é Bom, então nada do que ocorre é verdadeiramente Mal, exceto em aparência momentânea". O oposto dessa posição passiva de aceitação, portanto, é a "revolta gnóstica"). O medo de assumir a própria história é um eco das vozes sociais, e nossa, que encontramos ao longo da vida. É um medo paralisante, que impede que nos assumamos como autores dos nossos atos, e possamos nos arrepender e decidir mudar, se for o caso, ou repetir o comportamento. A primeira coragem, portanto, é a mais oculta: é a do sujeito com seu próprio conhecimento, com seu "pré-conceito de si", que o prende e o impede de ser e crescer.

3- É nesse contexto que entra o necrológico, da aula 1 do COF. O necrológio é um esforço por captar um sentido de conjunto na sua vida. É a primeira vez em que paramos para tomar consciência de como gostaríamos que fosse esse conjunto, a partir do qual os fatos soltos serão reinterpretados. É evidente que você pode, no curso da vida, adquirir novas experiências e gostos e optar por uma nova forma nesse conjunto. Ainda assim, essa nova forma terá relação com a anterior: o sentido construído anteriormente foi algo que o aproximou desse novo, e é essa aproximação sucessiva da sinceridade (portanto da verdade) a qualidade real da nossa vida.

4- Sobretudo em (a3), é preciso deixar claro o que é meditação. Olavo sobrepõe 2 sentidos na palavra, que são próximos, mas ainda assim um pouquinho distintos. 
O 1º, principal, é o de contar sua própria história. Isso significa o seguinte: ao longo do dia, nossa mente nos sugere memórias de atos bons ou maus que fizemos; nós reagimos a essas memórias de forma instintiva, com um aumento momentâneo na confiança ou um desgosto. Mas não é só pra isso que precisa servir a memória: esses atos involuntários podem servir de ocasião para que relembremos e aprofundemos esses momentos, para que tentemos analisá-los sob nova ótica. É também ocasião para puxar novos momentos, e assim aprofundamos nossa consciência biográfica, a matéria de base para, por exemplo, pensar numa forma de conjunto.  
O 2º, de Hugo de São Vitor, implica em rastrear a origem de uma ideia sua. Ou seja, você pode estar no banho, no ônibus, e de repente pensar num relacionamento e chegar a, ou já pensar diretamente sobre, como você se relaciona com pessoas, quais são suas expectativas. Quantas expectativas e modos de se relacionar não são emulados dos programas juvenis como Malhação Eu mesmo, numa vez em que assisti dois episódios de novela para um estudo, já estava querendo imitar o estilo de um rapaz de se aproximar de uma garota. Idem, nas amizades - será que você criou a expectativa de Friends, de amigos inseparáveis, de um amor ao estilo "lobster", que termina e volta, mas que no fundo está destinado a dar certo? Ou talvez pegou dos desenhos japoneses? Os famosos que temos acesso são feitos em maioria numa forma rigorosíssima para um público de 13 a 20 anos, e tratam da vida como adolescentes procurando o seu bando a quem obedecer. Não há histórias que falem da construção de uma vida individual e uma família, mas sim a conquista de um talento para servir a um bando de referência - à guilda, à tripulação, ao time, ao laboratório, "à empresa", enfim, etc.. Todo o material que consumimos nos influencia, quer tomemos consciência disso ou não. Meditar sobre nossos modos de agir e suas possíveis fontes de um lado nos liberta, de outro nos fornece um poderoso recurso de análise literária. Ou seja, rastrear essa origem, ainda que fique imprecisa, é ganhar ao mesmo tempo a liberdade para pensar em modos diferentes de comportamento. É o mesmo recurso usado para se desaculturar, que tratarei depois.

5- Na medida em que se adquirem ideias diferentes das do meio ("saber é saber o que os outros não sabem"), você se tornará esquisito, e isso te colocará num confronto, como em (b). Olavo viveu esse confronto sozinho, mas ao mesmo tempo ele conheceu uma época em que existia ainda pessoas que o faziam - somado ao talento desenvolvido para alguma arte, são, afinal, os grandes nomes de um país, que conseguem produzir algo acima das expectativas dos demais. Não muda o fato de que ele conheceu uma solidão maior do que qualquer aluno do COF pode hoje até imaginar. A criação do Seminário, como ele mesmo disse, era em boa parte para criar um ambiente propício para que o sujeito não se sentisse só. Ele comemorava inclusive os casamentos surgidos assim. Imagine o contrário: imagine que tudo o que você tem são livros e dvds, você aprende sobre a inteligência e tudo o mais que existe de conflitos individuais, sociais, espirituais, mas não tem a internet para conversar, só tem o ambiente imediato (sua família, seus amigos, sua cidade, por exemplo). Você aguentaria uma vida toda assim? 

A acusação de seita é uma imagem idiota construída no fato de que Olavo se esforçou por construir um espaço virtual onde fosse possível facilitar a vida dos alunos para conhecerem pessoas que também tinham os mesmos interesses, representados pelo próprio COF. Assim o lema das aulas iniciais do COF "Amizade é amar as mesmas coisas e odiar as mesmas coisas". Olavo queria permitir a construção de amizade não no contexto de momento, como quem faz amizade contextual com um colega de turma que logo depois se esquece, ou numa fila de banco, ou no barzinho, ou mesmo por ser vizinho, e a única ligação real existente é esse contexto, que não tem peso para a construção de uma vida com sentido e com valor efetivo. Viver só dessas amizades é "prostituir sua consciência", como Olavo diz, na medida em que você se fecha para o que poderia ser a mais, acima desse contexto, e que só você pode saber o que é pela abertura da sua própria biografia. Como o COF preparava para isso, então o ambiente em torno é perfeito para essas discussões, coisa que nunca se vê em nenhum outro tipo de grupo de estudos. E é isso o que estranha tanto quem vê de fora.

6- Não se trata em (b) de ser mal com seus amigos da "velha vida", de xingá-los etc., mas sim de tirar o foco dali. É possível que entre os amigos haja quem queira conhecer essa nova modalidade de posição existencial, e nesse caso dar-lhe apoio é inclusive um exercício de aprendizado para você. Quem não quiser, não quer. Olavo recomenda mil vezes a ausência de revolta, aprender a ser caridoso com todos (ver aqui), mas ser caridoso não é doar a grande parte da sua atenção para quem não quer aquilo que você considera o que há de mais valor na sua vida. É preciso coragem para sabe romper, e coragem para saber não odiar.

7- É também aqui que o estilo de palavrão, de xingamento, de se colocar contra o establishment, como Olavo fez no Imbecil Coletivo I e II (no II ele comprou briga pra defender o Pedro Sette Câmara, então jovem universitário perseguido) servem para nos ilustrar a coragem de defender "seus próprios olhos". Se como efeito colateral pode gerar uma arrogância extrema, facilmente despistada caso o outro tenha de fato mais conhecimento, essa postura do Olavo gerou o que de fato tanto se queria da nossa geração: gerar pessoas questionadoras. Falou-se muito isso, mas é óbvio que só se aplicava a um conjunto pequeno de coisas, fato aliás percebido na medida em que, pela expansão das coisas questionáveis, rapidamente se criou uma sucessão de conflitos no país. A coragem de enfrentar o meio vai desde esse sentido imediato de confronto, a fim de ganhar a liberdade pessoal de questionar (eu vi erros em autores grandes, e se não fosse Olavo preferiria dizer que eu estava delirando), mas é também, como no tópico 4, reconhecer as ideias que te formaram e se permitir criar novos padrões de comportamento, apostar em novas ideias, em suma, conforme o que te parecer mais justo.

8- Sobre a desaculturação. A palavra tem sentido negativo, e Olavo diz que "só um gênio ou um louco pode desaculturar a si mesmo". Desaculturação é contra o que Ariano Suassuna devotou sua vida: nós, sobretudo nordestinos, perdemos o vínculo com nossa cultura e história: imagine, por exemplo, um hare krishna, vegetariano, conversando com um idoso de cidade pequena, que conheceu o catolicismo popular e a cultura do gado. Esse rompimento foi substituído sobretudo por um círculo cultural de enlatado americano: não a verdadeira cultura americana, seja de raiz, seja de cultura erudita, mas o que tinha no meio, o pop (séries pop, música pop, espiritualidade pop etc.). A nossa época nasceu e se criou nesse enlatado, não propriamente na "cultura brasileira": é o estado atual das coisas. Só há como sair disso sendo induzido por outra pessoa; "desaculturar-se", sozinho, implicaria ter chegado à camada 8, que geralmente é de adultos, onde a meditação se torna mais ou menos normal e espontânea, e só daí perceber a raiz dos seus hábitos e tomar novas decisões de comportamento. Imagine um jovem chegando a esse ponto: ele tem que ter em si um fator de desestabilização com o meio muito forte: seja negativo (alguma loucura que o torne afastado do meio), seja positivo (genialidade).

Um exemplo de indução de desaculturação é o que acontece na universidade. Hoje o esquema geral é assim: o aluno, classe média, vem de família evangélica; recém-saído da escola, tem mais conhecimentos "chiques" do que a família, então se considera superior. Na medida em que nutre um conflito entre sua auto-imagem de superior e o que presenciou na sua família, ele deseja algo a mais. A universidade então apresenta uma nova forma de ver o mundo, onde os evangélicos são de fato ignorantes que precisam ser reeducados etc., e que eles são os diferentes. Assim o aluno rompe o vínculo com sua raiz e entra nessa nova cultura, a acadêmica, e, quanto mais ele tem sucesso lá, menos ele compreende sua raiz. O problema é que o fenômeno de desaculturação universitária acontece de forma implícita - não é uma matéria acadêmica, nem é tema de curso nenhum, quiçá Ciências Sociais, mas enquanto método, não realidade - e não leva o sujeito a uma cultura universal, mas sim à composição do quadro cultural local, que é, por sua vez, uma "cultura contemporânea".

A verdadeira desaculturação, a que gera gênios de valor universal e não acadêmicos de valor específico para aquela instituição daquela cidadezinha daquele país, implica na habilidade de atingir um estado "neutro" a partir do qual todas as culturas podem ser vistas a partir do seu próprio coração, como suas próprias. Isso inclui a sua cultura de raiz (aprender a compreender sua família) e a cultura na qual essa raiz está imersa (a nacional). Diz Olavo no artigo de 2006, Pela restauração intelectual do Brasil:
O objetivo primeiro da educação superior é negativo e dissolvente: consiste em “desaculturar”, no sentido antropológico do termo: desfazer os laços que prendem o estudante à sua cultura de origem, às noções consagradas do “nosso tempo”, à ilusão corrente da superioridade do atual, e fazer dele um habitante de todos os tempos, de todas as culturas e civilizações. Não se pode chegar a nada sem um período de confusão e relativismo devido à ampliação ilimitada dos horizontes. Não basta saber o que pensaram Abrahão e Moisés, Confúcio e Lao-Tseu, Péricles e Sócrates, ou os monges da Era Patrística: é preciso um esforço para perceber o que eles perceberam, imaginar o que eles imaginaram, sentir o que eles sentiram. Não se preocupe em arbitrar, julgar e concluir. Em todas as idéias que resistiram ao tempo o bastante para chegar até nós há um fundo de verdade. Apegue-se a esse fundo e faça sua coleção de verdades, não se impressionando muito com as contradições aparentes ou reais. Aprenda a desejar e amar a verdade como quer que ela se apresente. Acostume-se a conviver com as contradições, já que você não terá tempo, nesta vida, para resolver senão um número insignificante delas.
Isso não existe na universidade. Não é matéria de curso nenhum. Menos ainda o é a meditação, que só pode ser feita ou por quem viu ser feita inúmeras vezes - com Olavo, no nosso caso - ou por quem já tem uma vida, atingiu a plena maturidade emocional, e começa a repensar sua história (camada 8). Olavo menciona sua experiência com teatro: foi a técnica de identificação pessoal com os dramas dos personagens que o abriu para isso. É expandir a alma, como queria Fernando Pessoa, é o mergulho stanislavskiano do Olavo. É só nessa postura que se pode dizer que "toda história é história contemporânea" (isto é, a alma humana permite compreender todos os dramas humanos a partir da imaginação e analogia), ou ainda “Para compreender uma civilização- dizia Titus Burckhardt – é preciso amá-la, e isto só é possível graças aos valores permanentes, de validade universal, que ela implique.” (ver mais aqui). Não existe outro meio, e isso não é exagero retórico. Não existe!

O fato de Olavo recomendar isso mortalmente não impede que seus alunos, na pressa por terem um lugar ao sol, se fechem para inumeráveis culturas. Pior para eles, e para quem os seguir. É por essa razão que se fala do "voto de abstinência em matéria de opinião": quanto mais cedo você constrói uma imagem intelectual da qual precisa para se manter, menos você compreenderá. Eu estou aqui, eu estou compondo uma imagem sobre mim mesmo, mas, felizmente, eu sou estúpido o bastante para continuar sendo estúpido publicamente, para considerar tudo o que faço aqui "lixo" (ainda que útil), para tentar na medida do possível não guardar qualquer imagem, nem depender financeiramente disto aqui. Se assim não fizesse, estaria lascado. Essa é parte da coragem de (b2), consequência do meio social, ainda que seja de estudo e sério.

Nota de rodapé: No estado atual, e eu próprio vivi isso, algum grau de desaculturação acontece e não apenas com o enlatado americano. Hoje em dia, com a internet, temos pelo menos mais 3 enlatados disputando terreno: o japonês (bem mais desenvolvido e acessível), o coreano e o chinês. É dessa influência pop de séries, desenhos, HQs e música que surge em jovens o desejo de aprender o idioma, de absorver mais dessas culturas. Não se trata, porém, da desaculturação educativa, mas, ao contrário, do desprendimento inicial da cultura local, o que gera pessoas esquisitas, como eu próprio, os "otakus", "k-poppers" e cia., e que não sabem como coordenar seus gostos com seu meio. É, antes, o começo de um processo, não seu fim, e não temos, hoje, meios de lidar com essas pessoas, ainda que atinja uma grande fatia de jovens (para não falar no enlatado americano).

9- Já meditamos, já confrontamos o mundo, agora precisamos confrontar o caos. De (c) a (f) a coisa parece mais ainda com um exercício de ascese. Em (c) é preciso procurar ativamente e aceitar a imensa quantidade de conhecimento. Há o famoso post do Olavo em que ele recomenda 60 livros por ano. O que quase ninguém prestou atenção foi nas letras miúdas abaixo: "em volta dos 60 faça 'leituras inspecionais' [pesquise por Mortimer Adler] de cem ou duzentos livros, e esteja sempre fuçando revistas especializadas de todos os assuntos". Quem fetichiza os 60 livros perde de vista a construção do panorama do saber, que é ainda mais importante, sobretudo no começo, do que a leitura propriamente dita. É essa fetichização que gera o fenômeno assinalado pelo Horácio Neiva: as pessoas ficam presas no universo olavette. Olavo se transforma num curso universitário: ao invés de te desaculturar para a cultura universal, te desacultura para ele próprio. Diz Olavo no artigo aprendendo a escrever (citado, desgraça!, pelo próprio crítico Horácio):
O sujeito que nunca tenha lido um livro até o fim, mas que de tanto vasculhar índices e arquivos tenha adquirido uma visão sistêmica do que deve ler nos anos seguintes, já é um homem mais culto do que aquele que, de cara, tenha mergulhado na “Divina comédia” ou na “Crítica da razão pura” sem saber de onde saíram nem por que as está lendo.
Na medida em que se busque ver a quantidade de conhecimento que existe, e, até pelo confronto com Olavo, se perceba a quantidade que é necessário ter, o sujeito pode cair num estado de pânico (eu caí e caio até hoje). Quando se começa a adquirir cultura e se percebe o tamanho de um Manuel Bandeira, o tamanho de um Bruno Tolentino, do próprio Olavo, a reação natural é um tremor. De minha parte, junta-se a uma profunda tristeza quando, mesmo cursando Letras, relembro que ninguém lá me ensinou nada disso, ninguém lá sabe de nada disso: é um misto de solidão e vontade de ajudar, que só consigo sintetizar com 3º Estudo de Chopin, Tristesse (especificamente neste vídeo, o original foi deletado - quem viu o anime sabe o que a cena representa). A coragem se torna cada vez mais "etérea": não é mais contra algo, ao contrário, é sua confrontação com uma infinitude sem solução. Se você lesse 100 livros por 100 anos teria lido 10.000 livros, e isso não é mais um grão de poeira perto da quantidade de livros já publicados e ainda por se publicar (para mais detalhes, ver este vídeo). Essa imensidão interminável, porém, cujo treinamento fazemos pelo mapa da ignorância, é o campo onde existimos. É a vida real do conhecimento, e é preciso saber medir o que se teve com o que faltou ter, do contrário não há como falar com sinceridade. Fora disso, cai-se na expressão popularizada pelo Olavo "o efeito Duning-Kruger", da qual a universidade dá uma amostra: você se prende num conjunto fechado de conhecimentos e acredita que eles sintetizam o universo inteiro. É próprio do período pré-desaculturação acreditar, ainda que implicitamente, que seu vilarejo é o centro e topo do mundo, porque suas preocupações de sobrevivência estão todas ali.

10- Olavo fala sobre "consistência intelectual". Em primeiro lugar existe a coragem de perder a própria vida, que parte de uma decisão. Isso já garante uma consistência muito maior do que um "homem medíocre". Mas na medida em que se adquira ideias, meditadas, regando-as com conhecimento, adquire-se a "consistência intelectual", tal como Olavo fala no vídeo "o que é ser um grande homem" ou ainda no "perder as ilusões sobre esta vida". A descoberta de si para além do corpo, sentimentos e memórias, isto é, de uma unidade onde todos esses fenômenos são parte, como nas meditações propostas no A Consciência da Imortalidade, servem para apresentar o sujeito à sua realidade última, que será aquilo que ele confrontará com mais precisão na camada 12. Olavo quer elevar-nos até esse ponto, e usa todos os meios possíveis para isso, como ilustrarei a seguir. Algumas amostras:
III) Aulas 56 e 57 sobre a Alma imortal.
IV) O sentido da vida, desde a aula 1, e a ênfase do Olavo em popularizar Viktor Frankl
V-1) Aula 10, onde ele faz o exercício de atenção ao ambiente em torno, isto é, a abertura para o que está latente na percepção.
V-1.2) Também a leitura do Presença Total, proposta na mesma aula, abre para a percepção do eu enquanto unidade perante o "Ser total".
V-2) O exercício de relaxamento da aula 32 para abrir para a percepção pura. Na p.121 do A Consciência da Imortalidade Olavo menciona que esse tipo de exercício é para afrouxar a percepção do sujeito para ele perceber-se para além do vício moderno de associar ou ao corpo ou à mente.
V-3) O começo da aula 15 ilustra essa percepção pura, pré-verbal, quando a "mente total" do sujeito conseguiu perceber um padrão nas cartas antes que a "mente racional" fosse capaz de verbalizar, uns 40 turnos antes. 
V-4) Essa percepção pura, por sua vez, abre o sujeito para uma atenção reflexiva ao verbum mentis. Os prefácios da edição da Nova Aguillar à obra poética de Fernando Pessoa (Cancioneiro e Mensagem) mostram notas do poeta falando disso, que é também a raiz da impressão genuína a ser posta numa forma poética ou literária. É o pensamento mais puro que temos, ainda sem articulação verbal, e é ilustrado nas aulas 379 (+/- aos 34m40), 380 (+/- aos 39m30), 383 (+/- aos 28m), conforme tive acesso.

Há inúmeros outros exemplos, mas estes devem servir de base para ilustrar o esforço do Olavo de colocar-nos numa perspectiva supra-histórica, seja no sentido do nosso eu, seja no da história em si. É ocasião de explicar o que ocorre, conforme entendo, das camadas 8 a 12, mas fica para outro momento.

11) Tudo isso gera (e) e (f), que são sinônimos praticamente. É o lado negativo que qualquer sujeito, desde a simples desaculturação inicial até a aquisição de uma personalidade profunda e arraigada na eternidade, seja sujeito comum ou até santo, terá de enfrentar. Estar sozinho pode gerar a tentação da revolta ou da tristeza profunda, ambas demoníacas. É essa posição que Olavo descreve neste trecho, pouco conhecido:
“Várias vezes, em décadas passadas, a impossibilidade quase absoluta de infundir nas pessoas do meu círculo mais próximo um lampejo de interesse pelas coisas do espírito me levou ao mais negro desespero e até a contemplar a possibilidade do suicídio. O apego delas à mais mesquinha banalidade do dia-a-dia se erguia diante de mim não apenas como um muro impossível de saltar ou furar, mas como quatro paredes que se estreitavam progressivamente, sufocando-me.” (grifo meu)
Quem vê o Olavo risonho das aulas ou do True Outspeak não imagina essa face. Foi pressenti-la, ao conhecê-lo e pegar logo de cara o livro O Jardim das Aflições, que me deixou em pânico: como esse sujeito ria com tanto gosto, e tirava piada mesmo depois de falar de algo tão trágico e terrível?
Miguel contra o diabo.

É uma capacidade praticamente angélica, mas que Olavo não conquistou sozinho. É típico do diabo a revolta, o grito de raiva ou angústia. É típico dos anjos a serenidade, o auto-controle. Houve a sorte (Olavo considera um milagre) do Olavo de conseguir sair do Brasil nessa época; há sua família, cujo amor o impede de cair na camada 4, há o estudo de biografias de pessoas que caíram, como a do Carpeaux, que ele sintetiza no ensaio "Introdução a um exame de consciência", presentes tanto no Futuro do Pensamento Brasileiro, como nos Ensaios Reunidos do Carpeaux, volume 1. O exercício da meditação, também, e do encontro com esse "eu com unidade", o imortal, nos forçam a adquirir substância de resistência. Alguns quotes úteis:

Mesmo que um escritor não tenha a menor intenção religiosa, não escapará da máxima de Antonio Machado: ‘Converso com o homem que sempre vai comigo — quem fala só espera falar a Deus um dia —; O meu monólogo é conversa com este bom amigo. Que me ensinou o segredo da filantropia.’

Condenar-se é usurpar a função do diabo; perdoar-se, a de Deus. Não perca tempo com essas coisas. Tente apenas compreender-se e ajudar-se, e faça o mesmo com todo mundo. Creio que este é ‘el secreto de la filantropía’.

Quando me acusam de um mal que não cometi, busco sua analogia próxima ou remota com algum que cometi e sempre descubro alguma coisa útil, da qual o acusador não tem idéia próxima nem remota.

Gustave Flaubert, que era um ateu, e Henry Miller, que era um pornógrafo, praticavam o exame de consciência tão bem ou melhor do que qualquer católico que eu conheça.

A diferença de (e) pra (f) é entre o problema que você vai enfrentar consigo mesmo, e o problema que você vai enfrentar ao lidar com os outros. O grande desafio de buscar o Bem não é só o rompimento com seu eu antigo, com o meio, com a cultura, até contemplar uma visão cada vez mais completa e pura desse bem ("Amar a Deus sobre todas as coisas"); é que, quanto mais você adquire, mais você vai perceber a ausência dele nas pessoas, no meio, na cultura. Ao contrário do que se pensa, isso não vai gerar revolta, nem um senso de superioridade propriamente dito, mas a tristeza que fez Olavo contemplar o suicídio. Essa é a grande ironia da vida, e que é perceptível nos santos que não estejam em claustros: quanto mais se conhece o Bem, mais se descobre o Mal, não porque se quis conhecê-lo, nem por absolutamente nenhuma outra razão do que a ausência do Bem que se passará a perceber. Quem conheça o Mal não pode chegar a uma visão do Bem, ao contrário, só sente ódio do pouco Bem que conheça, buscando nesse bem algo de mal para se justificar o outro não ser tão bom assim. Quem procura o Bem, por outro lado, encontrará não os furos, que ele tentará reparar ou "não ver" (Olavo confia em todo mundo até que se prove o contrário, e mesmo assim ele só dá um sacode e esquece), mas sim as grandes ausências, que geram compaixão ao se perceber ao mesmo tempo o que o outro está deixando de conhecer de Bom. É essa "tristeza sagrada" a constante que move, por exemplo, o serviço educacional do Olavo. Qualquer outra visão abaixo dessa é tolice. E é nesse ponto que ele quer nos colocar.

Nos próximos posts muito desses assuntos acabarão por ser retomados, mas por outro ponto de vista. Se você não entendeu, acompanhe os demais mesmo assim. E fique à vontade para fazer perguntas.

Sobre as baboseiras que até ditos ex-alunos falam do Olavo:



Até o próximo post.


quarta-feira, 2 de março de 2022

O Começo - Post 01 (de 10)

(Update: Post 02, Coragem, já foi feito. Clicar aqui ou no índice ao final deste post)

 Eu não tenho paciência de fazer suspense, então vamos começar a série de posts.

Primeiramente eu preciso que vocês aceitem que existe uma distinção entre a capacidade de compreender, não só Olavo, como qualquer coisa (vide post anterior). É duro, é triste, eu morro de vergonha, mas já dizia o velho ditado:



As categorias com que tentei montar este blog - e se assim conseguir, investirei mais a sério daqui pra frente - são uma amostra desse fenômeno. Existem as pessoas que, diante de uma personalidade elevada - ainda que, claro, a polêmica ajude a "financiar" o fenômeno - só enxergam fofocas biográficas banais, que vai desde quem apenas fala da vida do Olavo, como a própria Heloísa, filha dele, até os que só enxergam "cu", mostrando, antes, os focos freudianos de seu interesse e não os do Olavo (vide artigo do blog). Há quem enxergue ali apenas seus comentários do cotidiano, em geral por meio da visão midiática. Há, já em número bastante menor, os que debatem acerca das questões que ele abriu em outras áreas, como nas ciências, na literatura etc. (isso quando é debate e não apenas confusões de entendimento sobre o que ele verbalizou de fato). E, por fim, há os que enxergam as questões filosóficas e como elas influenciam de cima pra baixo o restante dos casos. Em outras palavras, em qualquer pessoa é preciso saber ver de cima pra baixo a partir de qual o ponto mais elevado que o sujeito conseguiu trabalhar, e qual foi o foco da sua atenção, e é desse centro, sobretudo numa personalidade ordenada, que todo o resto se ilumina. Quem quer que não olhe pra esse foco acaba por construir um personagem caricato. Isso em si já seria problema se fosse feito pela população em geral - mas, quando, além disso, é hábito comum mesmo em universitários, que deveriam zelar pelo conhecimento e pela impessoalidade científica, aí é porque a vaca já foi pro brejo.

Essas categorias de compreensão, que eu vou resumir aqui, me ordem ascendente, onde as seguintes incorporam as anteriores, como: a) fofoca, b) política, c) cultura, d) espiritualidade, e) filosofia; são, antes de mais nadas, tendências de foco que não serão aplicados só ao Olavo, mas a qualquer tema, pessoa ou objeto estudado, inclusive si próprios. Mesmo que a pessoa faça um julgamento bom de si mesmo, esse julgamento só considerará até essa esfera a partir da qual ele é capaz de enxergar o outro.

Esse é o pressuposto em que vou trabalhar nos posts daqui em diante. Não li tudo quanto gostaria para fornecer uma prova documentada por A+B, mas é algo que vi e revi insistentemente na minha experiência, e mais explicitamente na coleta de dados pro blog olavismo, quer ele existisse concretamente, quer fosse apenas minhas investigações para avaliar Olavo e o fenômeno Olavo, que vieram antes da ideia de expô-los em blog.

A hipótese trabalhada aqui é a de que o COF tem como uma das finalidades centrais desenvolver a inteligência do sujeito. Por inteligência, quero dizer a capacidade de enxergar o objeto em toda a sua particularidade, levando em conta tanto o que estamos conhecendo dele quanto o que não conhecemos. É só na medida do que sabemos comparada ao que não sabemos que se pode fazer um julgamento justo. É a falta dessa medida que gera, por exemplo, a incompreensão em torno da figura Olavo de Carvalho.


Pelo que eu entendi dessa habilidade de compreensão, ela precisa de:

a) Coragem

b) Amor

c) Linguagem para decodificar a mensagem

d) O sentido de uma ordem que incorpora todas as coisas (Deus)

e) Auto-confissão I (sua posição sentimental sobre o objeto)

f) Auto-confissão II (a distinção entre conhecimento por experiência e paráfrase)

g) Auto-confissão III (a distinção entre saber e hipótese)

h) O sentido de imensidão do saber

i) A distinção entre especialidade e generalidade (ciência x filosofia)


Este post vai estar sujeito a algumas edições, visto que minha escrita não é muito cuidadosa, mas a princípio acredito que sejam estes 9 aspectos o que empatam a compreensão em geral, e com Olavo em específico. É, portanto, também os 9 aspectos que prendem o espírito e impedem-no de alçar voos mais altos na compreensão da ordem humana e aproximação de uma antevisão da divina, salvo exceções miraculosas. Pela minha experiência - ainda pouca, mas, me parece, de boa pontaria - com grupos esotéricos, percebo que em geral há uma tendência a desenvolver mais ou menos os aspectos de d) a i), e, no sentido de simbolismo, mas incompleto, o c). Em particular f é dos mais importantes, e dos mais "esotéricos", porque está justamente na raiz da compreensão simbólica. Olavetticamente, como mostrarei, é quase nosso feijão com arroz, mas é preciso colocar a coisa em perspectiva para que ela possa mostrar sua potência verdadeira.

Espero conseguir dar esse apoio para a comunidade que busca aprender a compreender Olavo.

Horácio Neiva e a provável retomada do blog

Aproveitando a quarta-feira de cinzas, enquanto arrumava a casa, ouvi o depoimento do ex-aluno do Olavo Horácio Neiva, aqui. De modo geral, não posso deixar de dizer que há algo de verdade em seus comentários, exemplo: a) o estilo do Olavo gerou um modo explosivo de reagir, b) o ensino do Olavo se centra, "de algum modo", menos no conteúdo do que na emulação da sua figura, c) o Curso Online de Filosofia não era para leitura e discussão de um texto, como ocorre na universidade hoje.

Começo dizendo que nada sei do Horácio com exceção desse vídeo (27-02-2022) e seu fio no twitter (31-01-2019). Seu nome não me interessa, e, se muito, minha única reação à sua pessoa foi ficar irritado com seus risinhos de deboche ao longo de toda a entrevista. Do COF, ao que parece, sua única reação foi aprender o famoso risinho de deboche (de puta), o que mostra o que no fim das contas ele não estava buscando lá.

Descobri seu nome anteontem, por ocasião de uma conversa com um amigo que acompanha o Olavo desde aproximadamente 2003, e, pela última vez, espero, entrei em crise com o contraste entre o que um aluno de longa data viu no Olavo e o que eu, que comecei minha investigação em 2015, vi. Digo pela última vez porque desta vez eu decidi ter coragem e formular uma afirmação que já era da minha experiência há muito tempo, mas que eu recusava aceitar. Vamos a ela.

Reflitão

Este blog foi construído a partir da elaboração de um esquema de como Olavo é compreendido no nosso entorno. Isso eu já aceitava. Existe uma distância brutal entre "O Imbecil Coletivo do PT", na compreensão da Janaína Paschoal, e o "Imbecil Coletivo" como uma ferramenta na guerra eterna na alma humana e, consequentemente, na História, entre Leviatã e Behemoth. A coisa poderia ser resumida como um problema na chave das camadas da personalidade, mas não me parece uma chave interpretativa justa, sobretudo porque eu me considero camada 4 e, se assim for, não seria possível eu estar aqui diagnosticando o problema.

Existe, porém, um texto do Olavo publicado no Imbecil Coletivo II, chamando-se originalmente Mensagem aos sobreviventes, mas que ficou mais conhecido, na era da internet, pelo nome de Apeirokalia. A mensagem central do artigo é que existe uma distinção radical entre as pessoas: assim como no Tao Te Ching, há as que pressentem que o Tao não é o Tao, e as que tomam os ensinamentos do Tao como o Tao mesmo. Em outras palavras, há quem se abra para um objeto como sua realidade, que é a infinitude de conhecimentos que se entrelaçam na sua corporeidade temporal, e quem pressente esse infinito, porque é próprio da percepção humana, mas fecha o objeto o quanto antes em uma imagem verossímil, isto é, que se assemelhe a si próprio, ou, olavetticamente, a seu "horizonte de consciência". Para Olavo, é a experiência na juventude com o Belo, associado ao Bem e ao Verdadeiro, que abre a consciência para isso.

Chrono Cross

Na minha experiência, lembro de ter lido num livro sobre Ariano Suassuna uma citação, salvo engano, de Alberto Camus em que ele fala que todo o seu percurso literário parte de umas poucas experiências tidas na infância que o fascinaram por toda a vida. É disso que Olavo fala. Sei que no meu caso eu tive algo que seria análogo a esse fenômeno. Por um baita acaso caiu em minhas mãos um jogo chamado Chrono Cross, bem conhecido pela sua trilha sonora e sua narrativa próxima do famoso Chrono Trigger. A ambientação, sobretudo somada ao som, me fascinou de tal modo que, mesmo sem saber inglês, eu sempre tentava voltar a ele. Especialmente em Dream of the Shore Near Another World, música que rodava após uma forte cena dramática do jogo, eu parava de jogar para ouvi-la. As imagens, a narrativa central (o começo, claro), que conta sobre um jovem que desmaia numa praia e acorda em um novo mundo, parecido com o seu, mas onde ele teria morrido 7 anos antes, povoaram minha imaginação a ponto de eu tentar montar histórias inspiradas nessa, que ainda hoje me trazem frutos, inclusive na minha compreensão de espiritualidade. É uma experiência, seguida de outras, que se tornam pontos onde a memória se volta pelo prazer vivido, e são como uma "cola" que junta essas experiências. Para terem ideia, esse jogo mexeu tanto comigo que, mais tarde, com acesso a internet e um detonado em mãos para algumas dicas (só algumas, descobrir era maravilhoso), eu consegui avançar até um ponto onde ocorre uma narrativa de uma ilha que precisa ser salva a partir de um ritual envolvendo uma canção. A canção, modernizada em rock, feita a partir desta música, somada à cena do ritual em si, foram tão lindos, e ter chegado nesse ponto me empolgou tanto que eu literalmente chorei de tão feliz que estava por estar vivo (única vez, e curiosamente eu sou meio depressivo, mas jamais Pondémente blasé, espero). Essa influência musical também reverberou em mim, apesar de eu ser um fracassado.

Se o depoimento do Olavo é verdadeiro, e se se trata dessa experiência, então ela, nesse nível, é incomum, e se é assim quem a tem está numa categoria e quem não a tem está na outra. Não me parece o caso. Já li relatos pela internet de pessoas que relatam experiências desse tipo, como esta no Papo de Homem, e inclusive fui influenciado por tais narrativas, antes de conhecer Olavo, e, nem por isso, nem eles se tornaram filósofos nem eu poderia dizer que seja essa experiência o - e pior, o único - fator distintivo. Por outro lado, vendo agora, é evidente que o trabalho que o Olavo fez - e não só ele - parece ser uma tentativa de despertar um "algo" em quem tiver a tal tendência - se é que ela existe - e ao mesmo tempo fornecer as ferramentas desse "algo" a quem não a tiver. Esse "algo" é uma coisa monstruosamente importante, mas antes de falar dele, eu preciso deixar claro algumas implicações, que são a causa mesma de eu nunca ter evoluído essa ideia, por vergonha.

Apeirokalia


Sabem as castas, tomadas não como funções sociais, mas como uma tipologia espiritual? Pois bem, é aqui que paira o problema. É um problema religioso, e seríssimo. Se existe uma distinção entre as pessoas desse modo, ele:

a) Ou é algo desde o nascimento;

b) Ou é algo desenvolvido na juventude;

c) Ou é algo desenvolvido aleatoriamente, sem causa específica;

d) Ou é algo que pode ser desenvolvido a qualquer momento, com certas causas específicas.


Percebam que na hipótese "a" podemos falar em predestinação, ou em castas como necessárias para a estruturação de uma sociedade de forma a refletir o Bem. Se é "b", significa que há castas, mas por acidente: deve-se ao máximo descobrir a fórmula e espalhar para o máximo de pessoas. Se é "c", não há o que fazer, exceto pedir a Deus para receber esse "algo". Se é "d", não existem castas, e que ao contrário deve-se espalhar a educação o máximo possível. Até onde entendo, acho essa pergunta a mais cabeluda de todos os tempos, nela está toda uma decisão sobre a ordenação social e a descoberta ou encobrimento do Bem.



Lembra do Horácio? Não, não o poeta das famosas odes gregas que são estudadas até hoje. O outro, o que só ficou conhecido minimamente por ter sido aluno de Olavo. Vamos voltar a ele.

Mininu mimozu de mamãi

Antes de explicar esse "algo", deixe-me decompor sua situação.  Estas são as 3 afirmações que eu tomei da sua exposição para exemplo, colocadas no começo do post: 

a) o estilo do Olavo gerou um modo explosivo de reagir;

b) o ensino do Olavo se centra, "de algum modo", menos no conteúdo do que na emulação da sua figura;

c) o Curso Online de Filosofia não era para leitura e discussão de um texto, como ocorre na universidade hoje.


São verdadeiras? São, mas não são. Existem duas formas de enxergar um autor: de fora ou de dentro. Eu poderia dizer com muita ou com pouca informação, mas, vocês verão, é inexato, e é justamente por isso que decidi fazer este post. Ao contrário da expectativa universitária, quando não explícita, no mínimo colocada na própria estrutura, a acumulação de conhecimentos desordenada não gera ordem. Vi de um professor a frase "a acumulação de poesias gerará um salto qualitativo", isto é, quanto mais o acúmulo de dados, mais magicamente virão dados cada vez melhores (porque afinal todo mundo automaticamente lê absolutamente tudo o que foi feito e pode produzir uma continuação adequada, óbvio). Até agora, porém, não vi nenhum Manuel Bandeira, nem nenhum Machado de Assis, e nosso Horácio não é aquele Horácio, de uma época que não tinha nem internet nem riquezas minimamente comparáveis às de hoje. Como Horácio teria passado anos acompanhando Olavo, afirma ter lido 10 livros, e, não obstante, eu afirmo e provarei que é um ignorante no assunto?

Eis o ponto: mais ou menos importa apenas secundariamente; o que realmente distingue é dentro ou fora. Nos exemplos: 

a) Olavo gerou um estilo explosivo? Gerou. Qual era a intenção? Permitir que as pessoas perdessem o medo de dizer que as coisas talvez não fossem como estão dizendo que é, porque eles próprios estão vendo de modo diferente. A gente está numa época, formados sob a influência mais ou menos sutil dos ideais de Paulo Freire de uma educação crítica, que ensine a criticidade, e, não obstante, há uma cartilha caminho suave do que se pode questionar, fora do qual se torna algo ruim. Isso inclui, claro, o próprio professor que ensina a criticidade. É patético. E quando se diz que Olavo não permite que o critiquem, o próprio Horácio desconsidera sua posição existencial, sua influência anti-olavette, como também de inumeráveis outros que ele mesmo cita: Joel Pinheiro, Gustavo Nogy, Martin Vasques, e sabemos também de Rodrigo Constantino, Francisco Razzo, o próprio Felipe Moura Brasil, além das figuras menos enfocadas no estudo olavette, como Lobão, Nando Moura, Joice Hasselman, o pessoal do MBL como Kim Kataguiri, que procuraram o Olavo lá pelos idos de 2014 para aproveitar a propulsão do seu nome pelo mínimo (atualmente as lives estão apagadas, mas existiram). Não são apenas pessoas que questionaram, mas figuras públicas que não apenas questionaram, como tentaram destruir a posição da obra do Olavo, como o próprio vídeo do Horácio ilustra. Se Olavo fosse um guru ou alguém que impedisse questionamento, é evidente que isso seria impossível de sequer ocorrer.

b) O ensino do Olavo se centra, "de algum modo", menos no conteúdo do que na emulação da sua figura? Por que será? O Horácio pressentiu a coisa, mas passou longe. Olavo comenta sobre a emulação que fazem a sua pessoa, sobretudo no caso do Spider, que imita os trejeitos do Olavo e a linguagem do True Outspeak. Olavo diz, no curso de Guerra Cultural, por exemplo, que não são esses aspectos o objetivo, mas que é inevitável que isso ocorra. O centro, sua intenção, é que o modo de aprendizado proposto, como ele descreve na Aula 001 do COF, é o de captar uma personalidade viva e atuante. Comentarei mais sobre isso depois, mas, basicamente, significa aprender a perceber, por trás de todas as referências, aulas, polêmicas do dia, quem é Olavo de Carvalho, qual é a "fórmula real" que sua personalidade obedece e que cola todas essas coisas numa só pessoa. Fora desse estudo de uma unidade (personalidade) todas as partes adquiridas do Olavo se tornam cacoetes encaixados na própria personalidade do leitor, muito provavelmente capenga - o fato dele não ter entendido Olavo é prova disso. Isso o Horácio não percebeu, nem teria como perceber, como eu explicarei após o terceiro tópico.

c) O Curso Online de Filosofia não era para leitura e discussão de um texto, como ocorre na universidade hoje. Olavo queria ensinar uma postura existencial a partir da qual cada um possa fazer seus estudos. Sobretudo nas aulas iniciais do COF, sua intenção era limpar alguns dos erros principais que a nossa época comete, além de ensinar a pessoa o amor ao conhecimento, sem o qual não é possível manter uma vida de estudos. Isso o Horácio também pressentiu, mas não soube aprofundar.

O que foi que Horácio não percebeu? Que problema houve? Simples: faltou o "algo". O que é esse "algo", afinal? Vamos a ele.


A praia que divide os dois universos.


Eu listei algumas habilidades que me parecem fundamentais e que distinguem um bom entendedor de um mal entendedor.

a) O sentido de uma ordem que incorpora todas as coisas (Deus)

b) A distinção entre especialidade e generalidade (ciência x filosofia)

c) A distinção entre saber e hipótese (hipótese é pergunta, não conclusão; "não julgueis")

d) O sentido de imensidão do saber (mapa da ignorância)

e) A distinção entre conhecimento por experiência e paráfrase

f) A posição sentimental do sujeito sobre o objeto

Não vem ao caso detalhar cada um. O que há no centro, porém, é uma só e mesma habilidade: perceber uma unidade. Perceber "de dentro", não só "de fora", por julgamento externo. Minimamente, exige um ato de confiança de que há ali uma unidade que não é a que o leitor imagina, mas outra coisa, maior, mais profunda. É essa habilidade que permite investigar um sujeito como se ele fosse todo um mapa que merecesse ser destrinchado. Se essa unidade existe ou não é algo que a investigação deve falar, e não o investigador. Em outras palavras, é um ato moral de "não julgar". É permitir ao outro ser, como na contemplação amorosa. É só essa habilidade que permite a paciência de não encaixar as partes descobertas em locais errados: a nossa realidade é compor um quebra-cabeças sem ter a imagem-guia. Se você não confia que existe uma imagem sendo formada naquelas peças, ou você nem sequer tentará montar o quebra-cabeças ou o fará de improviso, "por contexto", isto é, encaixando conforme as vozes da sua cabeça - absorvidas da mídia, dos seus pré-conceitos e sentimentos sobre o sujeito e sobre si mesmo naquele momento - te disserem.



É nesse contexto que os exercícios do Olavo se encaixam. Desde a auto-confissão, para adquirir consciência de sua própria posição perante o objeto e o mundo, até os exercícios de leitura, para saber desautomatizar a linguagem e distinguir as mensagens a partir de mais recursos. 

Me parece que até a camada 8 é impossível chegar a isso. A camada 8 é quando o sujeito tem uma vida bem vivida e está pronto a encarar os fantasmas do seu passado e resolver-se. Esse exercício é o único, me parece, que fornece um senso firme de unidade. Não se trata, é claro, do jovem depressivo que fica revisando suas tristezas, impotente diante delas, mas sim de alguém já resolvido que rememora sua história e tenta aprofundar suas raízes existenciais. É aqui que o sujeito deixa de se portar só um papel social para beber na fonte da sua vida ativamente e redescobrir sua originalidade, dada pela sua história particular e suas reações ao longo dessa história. É essa percepção de uma vida em conjunto que permite ao sujeito compreender um objeto como um conjunto, porque nós mesmos somos o único objeto que nos é totalmente acessível o tempo todo. Todos os outros, como um especialista muito bom em sua especialidade, são no máximo aspectos de um objeto.

Existem, porém, 3 condições. Algumas pessoas se apaixonam por um tema de tal modo que o comem a ponto de captá-lo em profundidade. É um cordelista quando houve repentistas e sente ali a sua alma, é o físico que nasce ao assistir o Cosmos e admirar Carl Sagan, é o usuário de computador que desperta o gosto em algum jogo para decifrar os mistérios da programação etc.. Abre-se em maior ou menor grau uma porta de genialidade que, se compensadas com um senso biográfico, saltam o indivíduo para camadas ainda mais altas onde ele encaixa seu amor em um Amor mais profundo. Essa compensação não existe fora do olavismo, porque, conforme entendo o conceito, é raríssimo conhecer alguém camada 8 (e acima disso é impossível). Eu conheci uma, e só uma pessoa. Minha descrição do fenômeno vem da observação dela.

A segunda condição extraordinária é a "peirokalia". Não sei se o fenômeno que vivi é o que resolve a apeirokalia, como disse antes, mas é inegável meu apego ao meu passado, e o quanto as suas sementes influenciaram conscientemente o desenrolar dos fenômenos.  Mas foram coisas ao acaso. Quando criança eu mudei várias vezes de escola, por motivos diferentes, e eventualmente quando percebi que seria um padrão eu disse pra mim mesmo que queria me lembrar de cada pessoa, de cada coisa, porque  perder os amigos e ter que recomeçar era algo doloroso, então ao menos eu queria poder guardá-los no coração. Acredito que foi mais essa decisão do que o fenômeno com o Belo que me abriu pra experiências de ser fortemente influenciado por amigos - uma grande amiga fez um desenho de olho em mangá, o que, sua presença, me fascinou a ponto de abrir todo um universo de gosto por aprender a desenhar; também me deu mangás, que me abriram pro universo otaku; outra me abriu pra músicas e assim sucessivamente. Também meus estudos sérios começaram no dia em que percebi, há uns 6 anos, que minha vida tinha sido um total "desperdício" de tempo, e eu decidi não por jogar tudo fora e recomeçar (até porque amava as pessoas e coisas que estavam nesse passado), mas, ao contrário, fazer esse passado não ser em vão. Então minha experiência me mostra que é possível que a "peirokalia" abra o sujeito pra certas experiências na infância que sejam como âncoras do seu passado a partir das quais construir uma obra no futuro. Mas me parece haver uma terceira condição ainda mais fundamental e que está em posse de qualquer um.

A terceira condição, portanto, é a . Ou ainda, o amor. Para os religiosos, como falar em amor a Deus sem falar de um esforço constante por amar algo que está infinitamente além de todo e qualquer conhecimento e julgamento seu? É preciso exercitar essa habilidade com quem lhe for superior: perceber, na pele, o quão além eles estão do nosso julgamento, porque a imagem que resulta daí é uma imagem do próprio Deus. Fora disso, caímos na banalidade do julgamento constante e preconceituoso ao próximo. Chamo de amor porque é preciso um esforço ativo da vontade para dar ao outro a chance de estar acima dos nossos julgamentos, e, mais ainda, o esforço por tentar investigar o conjunto de realizações do sujeito. É permitir-se passar pela floresta de confusões e desentendimentos, por confiança de que, se ele te chamou tanta atenção no começo, deve ser porque ali há algo de maravilhoso que você pressentiu, ainda que não esteja mais vendo. Ainda em outras palavras, é ir além do olhar imediato para permitir a comunicação do "olhar interno" purificado a cada recusa de julgamento antes de conseguir ver o que há de Bom ali. É só no esforço constante de enxergar o Bem que o mal revela ou sua centralidade no objeto ou sua insignificância. Quem está focado só em ver o mal só encontrará bobagens, e a capacidade de enxergar unidades está perdida, talvez para sempre. Toda a problemática das religiões passa necessariamente aqui, e é aqui que Gugu afirma, nas 2 aulas do pão, que a prática correta da religião abre a alma para uma "pérola". Eu não sei o suficiente, mas analisando as práticas do ponto de vista "humano", me parece sim serem exercícios para abertura para essa Unidade, que não é outra coisa que não perceber o ilimitado no limitado, e, em outras palavras, abrir-se a Deus.



É por essa razão que eu fico tão desesperado com a problemática de estarem ou não entendendo Olavo, e que eu pressentia quando criei este blog. O problema não é Olavo. O problema é: estar fechado e não perceber Olavo é estar fechado para a espiritualidade mais profunda. São esses que não percebem, ainda que pratiquem a religião direitinho. A coisa é seríssima, e o que fizeram com Olavo é algo que, colocado em termos religiosos, é como ver no nosso país uma influência profunda e onipresente do diabo. É realmente assustador. Nosso Horácio, coitado, é só mais um. Foi só mais um, continua sendo, e, se nada mudar no seu coração, continuará sendo. Uma história sem o desenvolvimento do espírito é como estar numa correnteza rumo à cachoeira do esquecimento. Ela não perdoa ninguém. O tempo é assim.

Por fim, mas não menos importante, na ausência das 3 condições, e ainda como complemento a elas, eu detalharei as ferramentas que servem para emular esse trabalho, com ou sem a interioridade. E mostrarei como o trabalho do Olavo é, dentre outras coisas, uma tentativa que fornecer tais ferramentas. Isto é, "sanar o problema da apeirokalia". Essa é a discussão mais complexa da humanidade, porque dela depende todo o bem-estar social e a complexa relação do Homem com Deus.

O depoimento do Horácio, e do meu amigo, me abriram para a vontade de querer fazer isso. Espero que possa render para vocês algumas ideias úteis. Esperaria, porém, mais ainda, que se incorporassem como práticas pessoais, e, ainda mais, que vocês optassem por abrir por si mesmos o esforço moral de que falei. É doloroso, é triste: os sofrimentos que vivemos - quer os outros julguem como grandes ou pequenos - pesam no nosso coração e, por causa deles, nós os fechamos. A menina traída continua a ter esperanças no amor; na recorrência da quebra de confiança, ela desiste de ter esperanças. Vivemos como essa menina: no fechamento do coração, esquecemos qualquer valor que possa haver nas coisas, e nos entregamos às paixões imediatas - e julgamentos parciais -, seja de sexo, de tristeza, de maledicência, e esperamos, com isso, sermos felizes. Não seremos, nunca. Ao contrário, a paz temporária que possa haver é apenas a espera no fluxo antes da queda d'água.


Fiquem com uma música de um jogo fofinho sobre perdão.


E aguardem os próximos posts.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Sumário dos Posts [06-10-2020]

Sumário dos Posts 

(atualizado em 06-10-2020)

Para dúvidas sobre o formato do site, consultar a página: Sobre este blog e categorias principais.

Louis Althusser

    Louis Althusser (categoria 2, "os filósofos marxistas mais importantes")

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